sábado, 31 de janeiro de 2015

Começar de novo

Fiz o curso de Direito nos anos 90, na UFSC. Adorava o Direito, idealizava a advocacia. Advoguei, foi muito bom. Depois fiz especialização em Direito Constitucional e amei. Lecionei. Adorava.
Em 2005 atuei como advogada pela última vez, já em João Pessoa.
Percebi que o meu amor pelo Direito não era pelo Direito, mas pelo dom de elaborar petições, de argumentar, elaborar bons textos e ganhar causas por causa da boa escrita.
O Direito não era o meu dom, mas as Letras.
Em 2008, ingressei na UFPB como graduada, no Curso de Licenciatura em Letras - habilitação em Língua Portuguesa. Vida nova. Eu tinha 36 anos e rejuvenesci, renasci.
Em 2011 fiz a prova do Mestrado, ingressei na turma de 2012, ainda durante a graduação. Concluí a graduação em maio de 2013 (maio por causa da greve) e o Mestrado em fevereiro de 2014.
Antes da defesa da dissertação, porém, dediquei umas horas a uma prova de concurso. Professora do Ensino Fundamental II. Na concentração da fase final da dissertação, não parei para estudar, mas tenho orgulho em dizer que aprendi muito, tanto no curso de Direito, quando no exercício da advocacia, e do magistério superior em Direito, depois, quanto no curso de Letras, claro. Respeitei o curso de Letras, estudei com afinco, fui aluna aplicada das três áreas, Linguística, Literatura e Pedagogia, conseguindo o CRE final 9,5 (média do curso).
Aos 42 anos, tenho muito orgulho em dizer que agora, Bacharel em Direito, Especialista em Direito Constitucional, Licenciada e Mestre em Letras, parto para um novo começo, mais uma vez: Professora da Educação Básica, Ensino Fundamental II. Estou tão feliz, mas tão feliz, que não tenho palavras.
Na próxima segunda-feira (02/02/2015), começo a trabalhar na EMEF Afonso Pereira. Vou conhecer os colegas de trabalho na reunião de Planejamento Pedagógico.
Acredito que sempre é tempo de começar e realizar novos projetos.
Beijos a todos!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

A METAFICÇÃO EM "HIROSHIMA, MEU AMOR", FILME DE ALAIN RESNAIS

Por Késia Mota 

Um casal passa a noite fazendo amor em Hiroshima. Ela é francesa; ele, japonês.  Após vinte e quatro horas, ela voltará a Paris, onde é esperada, mas ele deseja a sua permanência na simbólica cidade. É um filme sobre Hiroshima, um filme sobre lembranças, um filme sobre o amor. Juntos, o casal passa as últimas horas na cidade japonesa. Nesta ocasião, a história de Hiroshima é revisitada. Mais que isso, a história de amor adolescente da personagem. "Hiroshima, meu amor" encanta pelo tom poético que o caracteriza do início ao fim. Há na abertura, em que aparecem os créditos, a imagem de um fóssil de vegetação e uma significativa introdução de trilha sonora.
A música de Georges Delerue e Giovanni Fusco transmite ao ouvinte um clima de ansiedade e mistério, intercalado vez ou outra por certa calmaria. Em compasso ternário[1], como uma valsa, a música inicia com um instrumento de sopro, provavelmente um clarinete, tocando a frase[2] principal[3], transmitindo um certo suspense e é respondida[4] por um piano que concorda com o que diz o clarinete. Aos poucos essa frase vai crescendo em intensidade[5] e mudando de tonalidade[6], aumentando o clima tenso de suspense, até que entra uma flauta iniciando uma nova frase em resposta à primeira, amenizando a tensão em notas descendentes[7], como que dizendo "Acalme-se, tudo vai ficar bem". Com isso, o clarinete responde em graus conjuntos[8] e em dueto com outro instrumento, retoma a tensão anterior, mas em clima de dúvida, descrença. Seria um "Será? Duvido". Esse diálogo segue ao longo da música, aparecendo ainda alguns outros instrumentos, tendo a flauta como amenizadora da tensão e suspense transmitidos pelo clarinete e o piano entre eles, angustiado, concordando ora com um, ora com outro. No entanto a música encerra deixando no ouvinte a sensação de que tal diálogo não chegou a uma conclusão (se a tensão era justa ou se haveria paz), transmitindo mistério e inquietação.[9]
Pela análise da introdução, nota-se que toda a trilha sonora é elemento intensamente significativo e belo em "Hiroshima, meu amor". A delicadeza das falas dos personagens, ao mesmo tempo de suavidade e força, a reflexão que pode ser proporcionada ao espectador, os movimentos, ora lentos, ora rápidos, tudo é acompanhado positivamente pela representativa trilha sonora. 
Imediatamente depois da abertura, com o escurecimento total da tela, inicia-se a encantadora e extremamente simbólica cena que pode ser considerada o preâmbulo do filme. Os braços do casal entrelaçados, ao som de uma belíssima e suave música. Primeiro os corpos estão cobertos de cinzas, mas em movimento. É como se fosse um abraço ocorrido no momento da tragédia de Hiroshima, como se ele a estivesse protegendo, pois as cinzas caem sobre os corpos, como uma chuva da poeira radioativa. Em segundo lugar, as cinzas passam a ter brilho, intensificando a ideia de poeira de radioatividade. Chove poeira brilhosa sobre os corpos, ele sempre parecendo abraçar para proteger a mulher. Na terceira parte, já não há mais cinzas nem chove poeira. Os corpos estão suados, o abraço já não parece de proteção, mas abraço sensual de corpos deitados, e ela está sobre ele. Em seguida, na quarta parte, os corpos continuam suados, em abraço sensual, e agora ele está sobre ela. Na quinta parte do preâmbulo, bem maior que as quatro anteriores, ocorre um poético diálogo; a cena do abraço é intercalada por ilustrativas cenas de Hiroshima. Os corpos não estão mais suados, o abraço sensual agora é mostrado a partir das costas dele e as mãos dela aparecem acariciando estas costas.
Logo depois desse preâmbulo, tocando os ombros e as costas dele, a personagem diz: "É incrível como a sua pele é bela." É exatamente neste momento que encerra o fundo musical e o som ao fundo passa a ser de grilos, animais noturnos. Percebe-se que as próximas cenas e os próximos diálogos, a partir de então, referem-se ao desenvolvimento da história, é o enredo. Essa passagem do preâmbulo para o desenvolvimento da história é bem perceptível ao espectador.
A análise de um filme rico como este é uma atividade que pode ser realizada a partir de inúmeras categorias. A forte personagem, o jogo com o tempo, os espaços – Hiroshima, Nevers, Paris –, a trilha musical, o enredo e muitos outras categorias certamente rendem trabalhos interessantes e importantes. Porém, depois de assistir ao filme diversas vezes e perceber as significativas representações nele presentes, especialmente considerando o poético e belo preâmbulo, nota-se que vale muito analisá-lo a partir da noção de metalinguagem, isto é, da metaficção. Relevante a contribuição de Bernardo (2010), Stam (1981) e Waugh (1984) a respeito do tema.
Para Gustavo Bernardo (2010), a metaficção é o além da ficção e é a ficção dentro da ficção. Patricia Waugh (1984, p. 2 e 5) ensina que "metaficção é um termo dado à escrita ficcional que auto-consciente e sistematicamente chama a atenção para seu status como um artefato, a fim de colocar questões sobre a relação entre ficção e realidade"[10] e que "metaficção é uma tendência ou uma função inerente a todas as narrativas"[11]. Robert Stam (1981, p. 55), nomeando metaficção como "arte auto-reflexiva", afirma que ela "chama a atenção de maneira provocante, para seus próprios artifícios".
Sendo um filme sobre a terrível catástrofe da bomba de Hiroshima, o enredo de "Hiroshima, meu amor" vai além do relato dos fatos históricos. Fala da catástrofe, mas não é só isso. É uma narrativa dentro da narrativa histórica. É, portanto, um filme essencialmente metaficcional. Bernardo (2010, p. 60) bem comenta que "[...] não se representa a realidade para repeti-la ou duplicá-la, [...], mas sim para dobrá-la, isto é, para recriá-la outra."
A personagem fala da tragédia de Hiroshima e ao mesmo tempo da sua própria tragédia, quando jovem, em Nevers, França. O espectador observa, em outro momento do filme, que a personagem,  no passado, teve os cabelos tosados, perdendo a cabeleira, como as mulheres vítimas da bomba. Também a bicicleta retorcida, que aparece na cena em que ela fala do ferro retorcido, tem relação com a sua lembrança da bicicleta que usava na juventude para encontrar o namorado alemão e que foi seu transporte no "exílio" para Paris, uma viagem de dois dias. No decorrer do filme, o espectador pode perceber diversas relações entre a história de Hiroshima e a história da personagem. Não é à toa que ela declara ter observado a si mesma enquanto observava as pessoas. É por isso que Waugh (1984, p. 7) declara: "Escrita metaficcional contemporânea é ao mesmo tempo uma resposta e uma contribuição para uma noção ainda mais profunda de que a realidade ou a história têm caráter provisório: não mais um mundo de verdades eternas, mas uma série de construções, artifícios, estruturas não permanentes[12]."
Para elaborar o roteiro de um filme sobre Hiroshima, uma história real mundialmente conhecida, Alain Resnais e Marguerite Duras criaram a história de uma mulher francesa temporariamente em Hiroshima. Mulher que teve, na juventude, um grande amor, porém proibido. Este atributo do filme ilustra o ensinamento de Bernardo (2010, p. 166) sobre "metaficção historiográfica do século XX: ele parte de um episódio histórico 'real' para a seguir descartá-lo e não mais se referir a ele, como se não fosse importante." O autor afirma, inclusive, que "[...] a presença do personagem histórico em um trabalho de ficção não torna a ficção mais 'histórica', e sim contamina de ficção a história." (BERNARDO, 2010, p. 184)
Existe uma narrativa dentro da narrativa, em "Hiroshima, meu amor", isto é, uma história de vida dentro da história coletiva (real) da cidade símbolo da bomba atômica. Acontece que "[...] uma ficção se encontra dentro da outra – e uma nunca é a simples reprodução da outra, mas outra coisa." (BERNARDO, 2010, p. 88).
"Hiroshima, meu amor" é uma narrativa sobre Hiroshima que evita com sucesso fazer uma cópia dos relatos dos noticiários e documentários. Sabendo-se que Alain Resnais foi contratado para fazer um filme sobre Hiroshima e, depois de assistir a todos os documentários sobre o tema, negou a possibilidade de reproduzir o mesmo que outros já haviam mostrado e, assim, buscou a colaboração de Marguerite Duras para elaborar um roteiro que unisse os fatos reais, o cinema e a literatura[13], entende-se perfeitamente o que ensina Bernardo (2010, p. 182): "A verdade 'mesma' é cinzenta, sensaborosa e, em última análise, inacessível, ao passo que a verdade do poeta é colorida, suculenta e intensa." Semelhantemente, Stam (1981, p.65) ensina: "[...] É a ficção antiilusionista que, em vez de oferecer-nos uma narrativa linear e contínua, confronta-nos com uma proliferação de histórias que parecem se multiplicar por fissão. Inúmeras histórias ocorrem simultaneamente. [...] entrelaçaram as histórias-dentro-da-história em um labirinto narrativo".
Já que esta análise é sobre um filme, falar de história dentro da história é também falar de filme dentro de filme, situação presente em "Hiroshima, meu amor". Uma atriz representando uma atriz, um filme sobre Hiroshima dentro de um filme sobre Hiroshima. Talvez esta seja a mais evidente e explícita marca de metaficcionalidade em "Hiroshima, meu amor". Pouco depois que o personagem comenta que não se zomba de filmes sobre a paz, em Hiroshima, as cenas são das filmagens. O expectador pode ver parte das técnicas de realização de um filme. Aparecem iluminadores e câmeras colocados em um andaime; aparece alguém, talvez um contrarregra, orientando figurantes; aparece um ator com o corpo todo maquiado, como se fosse uma vítima da bomba, tudo isso enquanto os personagens principais falam de amor.  É o filme em análise demonstrando o que ensina Stam (1981) sobre expor os seus próprios artifícios, suas próprias técnicas.
Outra situação em que "Hiroshima, meu amor" "chama a atenção de maneira provocante para os seus próprios artifícios" (STAM, 1981, p. 55), é quando a personagem diz que conhecer-se em Hiroshima é incomum. Conhecer alguém em Hiroshima, ter um relacionamento amoroso com um cidadão de Hiroshima, uma mulher francesa apaixonar-se em Hiroshima, isso é incomum. Quer dizer, não é comum ouvir falar nisso. Colocar esta fala na personagem do filme é como declarar ao espectador que o filme é incomum porque conta uma história inesperada, algo incomum sobre Hiroshima. Não as bombas ou as vítimas, as doenças, a destruição, a guerra ou qualquer outro tema que é comum a respeito de Hiroshima. Conhecer-se em Hiroshima é incomum. O filme é incomum. Esta é uma bela marca de autorreflexividade no filme.
Na sequência do diálogo, o personagem interessa-se pelo que acontecia à personagem no momento da bomba e o que o fato histórico significou para ela. É o texto fílmico revelando que, já que várias histórias pessoais aconteceram, enquanto ocorria a história de Hiroshima, o filme pode contar mais do que somente os fatos relacionados à bomba pois estes fatos tiveram diferentes sentidos para diferentes experiências pessoais.
Perto do final do filme, quando os personagem estão na estação de trem (ou rodoviária), ele diz a uma senhora idosa "Nós estamos tristes por nos separarmos". Exatamente neste momento, ela sai do local, toma um táxi e vai para um bar chamado "Casablanca". Ele a segue. Impossível não pensar no filme intitulado "Casablanca", vencedor do Oscar de melhor filme em 1943, que conta igualmente a história de uma mulher que encontra o amor em um país estrangeiro e depois volta sem este homem para a sua terra. Bernardo (2010, p. 43 e 244) diz que a "intertextualidade [...] integra os processos metaficcionais" e que "esse diálogo entre discursos já torna esse gênero metaficcional por excelência."
Muito interessante observar o quanto é explícita esta intertextualidade. O espectador é evidentemente induzido a perceber que a intertextualidade ocorre. Não é disfarçada. O casal está numa estação de trem (ou numa rodoviária), em "Hiroshima, meu amor", o que lembra o aeroporto, em "Casablanca". Ela pega um táxi e vai sem ele para um bar, não mais uma tradicional Casa de Chá[14], como de costume, no Japão, e como aconteceu antes, no próprio filme. Lembra o bar de "Casablanca". Provavelmente, ele não partirá com ela, nem ela permanecerá com ele, igual ao que acontece em "Casablanca". Enfim, é uma intertextualidade que não passa despercebida. Outras relações de intertextualidade, ao longo do filme, poderiam ser apontadas, além desta, como as semelhanças com a obra de Hitchcock, por exemplo. Mas seriam relações que passam um pouco despercebidas. Somente o espectador mais atento notaria.
A ideia de que em metaficção são explícitos os signos ficcionais é defendida por Bernardo (2010, p. 181): "Sabemos que a metaficção é uma ficção que explicita sua condição de ficção, quebrando o contrato de ilusão entre o autor e o leitor, ou entre o diretor e espectador. A metaficção se define bem como uma ficção que não esconde que o é, obrigando o espectador, no caso, a manter a consciência clara de ver um relato ficcional e não um relato 'verdadeiro'."
Diante de todo o exposto, pode-se considerar "Hiroshima, meu amor" um filme carregado de signos metaficcionais. Waugh (1984, p. 3) ensina que " 'meta' termos, portanto, são necessários a fim de explorar a relação entre o sistema lingüístico arbitrário e do mundo a  que aparentemente se refere. Na ficção eles são necessários a fim de explorar a relação entre o mundo da ficção e o mundo fora da ficção[15]".
Tamanha carga de metaficcionalidade de "Hiroshima, meu amor" atende a esta necessidade. É de se dizer que isto faz dele um filme forte, intenso e muito rico, artisticamente. Se ele foi feito com a intensão de marcar eternamente a memória dos seus espectadores, então obteve todo êxito nisso.
Susan Sontag (1987, p. 16) diz que "a arte verdadeira tem a capacidade de nos deixar nervosos". "Hiroshima, meu amor" nos deixa muito nervosos. Impossível não se sentir fascinado por este filme, positiva ou mesmo negativamante, seja por causa da sua poesia, por sua musicalidade, por sua força estética, seu elenco belo e atuante, e até mesmo por ser uma obra de arte que favorece, academicamente, a possibilidade de realizar inúmeras análises, em diversas categorias e perspectivas diferentes.

REFERÊNCIAS:

BERNARDO, Gustavo. O livro da metaficção. Rio de Janeiro: Tinta Negra Bazar Editorial, 2010.

HIROSHIMA, meu amor (Hiroshima mon amour). Direção: Alain Resnais. Roteiro: Marguerite Duras. Elenco: Emmanuelle Riva, Eiji Okada e outros. Trilha Sonora: Georges Deleure e Giovanni Fusco. França/Japão: Argos Films, Como Films, DAIEI Motion Picture Co Ltd et Pathe Overseas Productions, 1959.

SONTAG, Susan. Contra a interpretação. Trad. de Ana Maria Capovilla. Porto Alegre: L&PM, 1987.

STAM, Robert. Homo Ludens: O Gênero Auto-Reflexivo no Romance e no Filme. In.:  O espetáculo interrompido: literatura e cinema de desmistificação. Tradução de José Eduardo Moretzsohn. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1981.

WAUGH, Patricia. Metafiction: the teory and practice of self-conscious fiction. London, Routledge, 1984.





[1] Compasso ternário: 1,2,3 - 1,2,3, como uma valsa, pá ra ra - pá ra ra.
[2] Em música se usa o termo "frase" mesmo, para uma sequência que transmite uma idéia, um sentimento. Porque a música fala, então tem frases.
[3] Frase principal: sequência que mais se repete.
[4] Resposta: quando um instrumento (ou grupo de instrumentos) dá uma frase e outro instrumento fala outra coisa, logo em seguida, normalmente é uma resposta à frase anterior.
[5] Crescendo em intensidade: ficando mais forte.
[6] Mudando de tonalidade: quando a frase toda fica mais aguda, ou mais grave. Nesse caso, ficando mais aguda e, talvez, assustadora.
[7] Notas descendentes: de cima para baixo. Ex.: dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó.
[8] Graus conjuntos: notas que estão uma do lado da outra na sequência das notas. Ex.: sol e fá, si e lá
[9] Esta análise da trilha sonora foi feita com a colaboração de Debora Mota, Bacharelanda em Música/UFPB.
[10] Traduções do inglês feitas pela autora deste trabalho. Original: metafiction is a term given to fictional writing which self-consciously and systematically draws attention to its status as an artefact in order to pose questions about the relationship between fiction and reality.
[11] Original: metafiction is a tendency or function inherent in all novels.
[12] Original: Contemporary metafictional writing is both a response and a contribution to an even more thoroughgoing sense that reality or history are provisional: no longer a world of eternal verities but a series of constructions, artifices, impermanent structures.
[13] Nos extras do DVD a que se tem acesso, Paulo Emílio Salles Gomes oferece algumas informações sobre a produção do filme.
[14] Tea Room
[15] Original: 'meta' terms, therefore, are required in order to explore the relationship between the arbitrary linguistic system and the world to which it apparently refers. In fiction they are required in order to explore the relationship between the world of the fiction and the world outside the fiction.

segunda-feira, 23 de junho de 2014

FUTEBOL E POLÍTICA: só não falei de religião.



Faz tempo que não vejo tantos jogos de futebol. A Copa do Mundo é uma boa motivação para assistir aos jogos deste esporte. Copa do Mundo Brasil. Como ocorre em outros países, ultimamente, gera protestos, tentativas do boicote e intensas discussões políticas.
O que eu tenho observado é do jogo, mesmo. E parece muito com a política. Falo das faltas, das marcações. Os jogadores não somente colam nos outros, como também partem pra violência, especialmente nos momentos de desespero. O brasileiro Neymar passa o jogo inteirinho apanhando. Até criaram uma brincadeira, com a foto da Bruna Marquezine, namorada do moço, quando criança, chorando numa novela, com a legenda pedindo para pararem de bater no "mozão" dela, algo como "tadinho do mozão, parem de bater no mozão".
Infelizmente, o meu prazer em apreciar o esporte mais prestigiado no Brasil é diminuído pela tristeza de ver toda a violência presente no campo, este imenso campo de futebol, que parece tão pequeno na tela de TV! Preferiria ver os atletas correrem, chutarem a bola, fazendo belos gols, cabeçadas, jogadas armadas com o restante de time, companheirismo, passando a bola para quem está numa posição mais favorável para acertar o gol, clima de competitividade entre os times de acordo com as regras do jogo, sem manobras antiéticas, sem violência, adoraria ver isso.
Em ano eleitoral, a política é igual ao futebol. Quando os jogadores estão desesperados, partem para o ataque pessoal, marcação, provocação e violência. Preferiria ver os candidatos em campo atuando de acordo com as regras do jogo, com ética, discutindo os projetos dos seus partidos, os planos de governo, as medidas a serem tomadas para favorecer o desenvolvimento do país e dos estados. O que tenho visto, com tristeza, é uma intensa manobra midiática, em que as verdades são ocultadas, as trocas de acusações são fortalecidas, o jogo político funcionar com fundamentação em mentiras e meias verdades, uns contra os outros. Até mesmo os simpatizantes de um partido sofrem preconceito e até chegam ao ponto de perder amizades por conta disso. Não são candidatos, tampouco filiados ao partido, mas os simpatizantes de outros partidos rejeitam as suas ideias e passam a rejeitar a sua pessoa. Normalmente o foco das discussões está em questões pessoais, não em projetos políticos e capacidade do candidato para governar ou sobre o seu histórico – o de verdade – no exercício das funções públicas. O imenso campo de trabalho, na tela de TV ou nas redes sociais, parece tão pequeno! Limita-se a questiúnculas pessoais.
O povo fica deslumbrado e torce pelo time que estiver vencendo. O Brasil venceu o primeiro jogo, contra a Croácia, o povo disse "Viva o Brasil!"; ficou empatado contra o México, o povo mudou para "Afe, o Brasil não tá com nada!". Acho que hoje vai vencer contra os Camarões. O povo vai vibrar. E depois?
Nas eleições, em outubro, não será momento de votar em time que estiver ganhando. Nem em time que estiver perdendo. As pesquisas, comprovadamente manipuladoras, não devem manipular a sua decisão. Os ataques pessoais de um candidato contra outro, muito menos devem ser valorizados. No futebol, belo é ver o resultado do trabalho árduo do time que joga melhor, com técnicas bem estudadas, com o que chamamos de futebol arte.
Em outubro, é necessário fazer valer o pleno exercício da cidadania e votar no candidato melhor preparado para fazer o Brasil e o seu estado voltar a crescer economicamente e, claro, socialmente. Neste zero a zero em que estamos não dá para continuar. O Brasil pode ser muito melhor que isso. Seja sensato e criterioso para escolher o melhor candidato. E viva o Brasil!

Abraços a todos,
Késia Mota

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Crônica da simplicidade

Késia Mota

Não precisa ser especialista, psicanalista ou psicólogo para entender algumas questões humanas em vigor. Concorda? (Não sei). Digo que gosto de ser uma pessoa simples e conviver com pessoas simples, você sabe disso, não sabe? (Claro, você se sente bem onde quer que esteja, inclusive sabe conviver muito bem com a sofisticação, ressalte-se). Verdade, mas falo da simplicidade do coração, dos afetos, você sabe do que estou falando. (Ok, entendi).

Nas redes sociais, as pessoas sentem que precisam apresentar o melhor de si, expor o que é interessante. (Claro, isso é natural, não acha?) É natural, mas há uma consequência que eu considero nefasta e que atenta contra a simplicidade da vida, contra a valorização dos fatos pequenos, que ocupam a maior parte. A vida pode ter momentos grandiosos, e isso é maravilhoso, mas são raros. A maior parte dos momentos são, na verdade, comuns e não extraordinários. (Tem razão).

Porém, as pessoas querem fazer as outras acreditarem que as suas vidas são repletas de momentos grandiosos, mas isso não pode ser verdadeiro. Essa necessidade de fazer crer que a vida é grandiosa, a meu ver, é, na realidade, receio de demonstrar fraqueza, o que eu entendo como complexo de inferioridade.

Em algumas ocasiões, recentemente, vivi a experiência de estar com algumas pessoas em restaurantes. O que eu sempre entendi como sair para jantar? (Estar junto, beber, comer, bater papo, compartilhar histórias mútuas, conhecer-se). Isso mesmo. Eu acho que isso é a minha simplicidade, e esta parece estar em desuso, infelizmente. Na verdade, nestas situações recentes, em restaurantes, o que eu vivi foi algo muito diferente disso. A ideia de compartilhar histórias em comum e fortalecer laços de amizade parece ultrapassada. A moda, agora, parece ser a exaltação própria.

(Conhecendo você, creio que você fica calada ou monossilábica, nestas horas, não?) Exatamente. Eu permaneço em silêncio, falo muito pouco, ouço pacientemente, pois entendo que as pessoas querem poder falar, falar e falar, o máximo possível, das suas grandiosidades: das inúmeras viagens, especialmente se for para o exterior, dos restaurantes caros que costumam frequentar, das celebridades com quem mantêm contato frequente, das centenas de filmes, dos grandes feitos, como prêmios, publicações, e todas as suas glórias. Elas falam sem parar; eu, calada, só ouço.

São capazes de relatar listas e listas dos seus feitos, sem sequer esperar que eu diga alguma coisa, que eu expresse opinião. Não sei dizer que expressão facial eu faço, sabe? (Você costuma ser expontânea, quanto às expressões faciais, não disfarça muito o que pensa, não). É, talvez eu faça cara de nada ou de tédio, mas ouço. Elas falam, contam pabulagem, exaltam-se vigorosamente. Eu ouço, fico quieta, mas não desanimo. Sei que ainda existem pessoas que valorizam a simplicidade, a troca, a amizade, o interesse pelo outro, a alteridade, o companheirismo. Sair com uma pessoa para jantar, ela perguntar: Do que você gosta? O que quer comer? E eu, simplesmente, poder responder: O importante é estarmos juntos.

João Pessoa, 30/09/2013

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Em um quarto da casa, uma pessoa ronca. No outro, alguém sorri. Há um choro incessante que resta silencioso enquanto a vida segue para os indivíduos. No dia seguinte, bom dia, café com pão, sorrisos vãos.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Licenciada em Letras

Concluí a Licenciatura em Letras no dia 06 de maio de 2013, na Universidade Federal da Paraíba - UFPB. O meu discurso como oradora da turma é este:



Boa noite! Saudamos especialmente ao representante da reitora aqui presente, aos representantes do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes e dos departamentos – Departamento de Letras Estrangeiras Modernas, Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas, Departamento de Ciências Sociais, e Departamento de História, além dos representantes da Coordenação do Curso de Letras, da Coordenação do Curso de Ciências Sociais e da Coordenação do Curso de História. Abraçamos carinhosamente todos os familiares, companheiros, amigos, colegas de trabalho, vizinhos etc, dos graduandos que aqui estão em clima de comemoração muito especial.
A emoção que sentimos hoje não tem comparação! É o momento de celebrar o esforço, a dedicação, os estudos, as noites perdidas para terminar aquele trabalho que tinha que ser entregue no dia seguinte, de manhã! (A gente sempre se adapta aos prazos dados).[rs] Aquele trabalho em grupo que a gente acaba fazendo sozinho e coloca os nomes dos colegas. Ou talvez que a gente não faz e pede para alguém colocar o nosso nome. Aquele professor arrogante que tivemos que aguentar. Aquele outro que fazia tudo valer a pena. Aquele período que parecia não terminar nunca. Aquela greve que adiou tantos planos maravilhosos! Aquele amigo, aquela amiga que adquirimos para levar por toda a vida. Aquele grande amor que surgiu.
Para algumas pessoas, a certeza de que é esta a profissão que amam e que pretendem seguir para o resto das suas vidas. Para outras pessoas, talvez não exista esta certeza, talvez haja alguma mudança, no futuro. Existem também aqueles para quem não há absolutamente nenhuma certeza. Durante grande parte da vida da gente, dizem que a maior vitória que pode existir é passar no vestibular e cursar uma graduação em uma universidade federal. Quando chegamos aqui, percebemos que não chegamos ao fim de tudo, mas pelo contrário, apenas ao início. Um grande início, um grande ponto de partida. Estamos, na verdade, prontos somente agora para começar a corrida da vida. Antes estivemos treinando, estivemos nos alimentando, estivemos nos preparando para a hora que agora chegou. A corrida começa agora. O nosso futuro começou!
Exatamente agora, quando aqui nos reunimos para a colação de grau. Essa formalidade que precisa ser cumprida para que possamos comprovar que estamos prontos, que recebemos as orientações e os instrumentos necessários para ir à luta.
Alguns já estão encaminhados, ocupando cargos, cursando a pós-graduação, alguns na tutoria da EaD, alguns aprovados em concurso público, alguns exercendo o magistério, na Educação Básica, no Estado, no Município, ou na rede privada. Algumas colegas iniciaram o curso como senhoritas e concluem como senhoras casadas. Na verdade, o nosso coração pode estar cheio de insegurança e talvez até medo do que virá. Isso é muito natural. É assim que nos sentimos, sim, mas não devemos temer os desafios da vida, não podemos desistir antes de tentar, perder antes de lutar, não! As incertezas são consequência de estarmos vivos, neste mundo.
É normal ter incerteza, sentir-se inseguro, neste momento. Isso me faz lembrar  o poema Tabacaria, de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Peço licença para ler uns trechos:


Tabacaria


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
[...]
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
[...]
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
[...]
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
[...]


Como podem ver, é um poema que fala da incerteza e da insegurança da vida. O eu lírico de Tabacaria faz uma reflexão que provavelmente muitos de nós estamos fazendo agora. Talvez ele seja um pouco pessimista ou filósofo demais. Não sei. Sei que é normal ter medo do que virá. Porém, isso não pode ser motivo para desistir, nunca!
Aqui estamos nós, como parte de um grupo seleto, um grupo de pessoas que completaram a graduação em uma universidade federal. Este é o sonho de milhares de jovens pelo Brasil afora, jovens que a cada ano sofrem para conseguir aprovação no vestibular, como aconteceu conosco, que chegamos à colação de grau.
Encontramos dificuldades, mas superamos todas elas. Algumas nós resolvemos, outras aprendemos a conviver e por isso tivemos sucesso. Estamos aqui, prontos para a corrida da vida. Recebemos apoio, orientação, suporte e, algumas vezes, compreensão dos nossos professores – alguns cujas lições marcarão para sempre as nossas vidas, positivamente. De um jeito ou de outro, de todos eles aprendemos algo que nos favorecerá durante o percurso que temos a seguir. Agradecemos muito aos nossos mestres. Somos gratos também aos funcionários, todos eles que fazem com que as nossas necessidades possam ser atendidas, como resolver os problemas de matrícula e até mesmo as necessidades mais simples, como a de ter um ar condicionado ligado nos dias de calor ou a sala limpa para estudar. Gratos a esta instituição que nos acolhe e que nos dá alegria em realizar a formação superior aqui.
Somos gratos aos nossos pais (nossos maiores orientadores da vida inteira, pessoas que amamos porque amamos, haja o que houver), assim como a todos os nossos familiares. Aos maridos ou esposas, para os casados, aos namorados, aos companheiros, aos melhores amigos. Agradecemos aos nossos amigos, os nossos colegas de curso, por aquele e-mail avisando sobre as inscrições para um projeto interessante, aquele telefonema para lembrar do prazo de entrega de um trabalho, aquele toque sobre como melhorar a apresentação de seminários ou a escrita de trabalhos. Somos gratos a todos.
Nosso agradecimento especial a Deus, orientador supremo da vida das pessoas de fé.
E agora, cada um pode fazer aquele agradecimento especial – mentalmente, com um olhar, um sinal de beijo ou um SMS – para as pessoas especiais de sua vida.
Obrigada a todos vocês que aqui estão comemorando conosco o nosso grande dia!
Muito obrigado!
Sucesso a todos os colegas de Letras, Ciências Sociais e História!
Parabéns! Nós merecemos!