domingo, 21 de agosto de 2011

Resenha sobre "O Santo Inquérito", de Dias Gomes


O drama “O Santo Inquérito”, de Dias Gomes, é a representação da trágica história de Branca Dias, uma jovem paraibana que teria vivido no século XVI, época em que a Igreja Católica exercia o seu poder, entre outras práticas, através da violência, pelo Tribunal da Inquisição.
Branca Dias, uma moça ingênua e livre, gosta de nadar e, um dia, vê-se diante da necessidade de salvar a vida de alguém que estava se afogando. Este alguém é um padre, o padre Bernardo, que recebeu a respiração boca-a-boca, de Branca Dias, para sobreviver. O contato com uma boca feminina traz terríveis conflitos ao religioso.
Ocorre que todos os conflitos vividos pelo padre não apenas o atormentam, individualmente, mas o levam a condenar a jovem Branca Dias. É a tragicidade da personagem. Desde que salva o padre e lhe faz respiração boca-a-boca, a trajetória de Branca é de desventura, chegando à sua morte, na última cena do drama.
Escrito na década de setenta, o drama de Dias Gomes tem uma mensagem de crítica contra a ação violenta da Igreja Católica, com a instituição da chamada Santa Inquisição, de altíssima arbitrariedade. Igualmente arbitrário e violento era o regime militar, vigente na época em que o drama foi escrito.
A ingênua Branca Dias é vítima da arbitrariedade do Tribunal da Inquisição, que agia em nome de uma fé, de um deus, mas sem piedade, sem justiça ou igualdade. O padre Bernardo, salvo pela jovem, transfere a sua culpa pela quebra da castidade, pelo desejo sentido desde o salvamento realizado com o ato de encostar os lábios, da respiração boca-a-boca, para quem o salvou, a própria Branca.
O drama questiona, assim, a questão de gênero, ressaltando o machismo da atitude do padre em transferir a culpa para a mulher desejada, inocente. Não somente no século XVI, período em que acontece a tragédia de Branca Dias, mas até mesmo na atualidade, homens desejam mulheres, ilegitimamente, e as culpam por isso. Atos violentos e arbitrários são cometidos constantemente contra mulheres que sejam objetos do desejo ilícito de homens casados, religiosos etc, mesmo que sejam inocentes ou mesmo vítimas desse desejo.
 Branca era totalmente inocente de qualquer culpa. Tinha um noivo, mas era casta. Até mesmo os seus lábios encostaram nos lábios de um homem pela primeira vez no ato de salvamento do padre Bernardo. Seu noivo chegou a morrer, no decorrer do processo instaurado contra Branca, pela Inquisição, por causa da legítima convicção de que Branca era a pessoa mais pura que ele conhecera.
A respeito do preconceito, o drama “O Santo Inquérito” aborda também o preconceito religioso. A Igreja Católica não somente forçou judeus a se declarar convertidos ao cristianismo, mas ainda lançou a distinção entre os nascidos católicos e os “batizados em pé”, quer dizer, batizados quando adultos, os “cristãos-novos”. O avô de Branca Dias era judeu e o padre Bernardo usou esse parentesco também para acusar a jovem. Aproveitando-se da ingenuidade de Branca, e porque esta não considerava errada a diversidade religiosa, o padre forçou a confissão sobre a preservação dos costumes judeus na família do avô.
Enfim, a peça aborda o preconceito de gênero, o preconceito religioso, a violência e a arbitrariedade cometida pelo principal poder instituído no século XVI, o da Igreja Católica, através do Tribunal da Inquisição. De excelência, a obra literária elabora uma crítica contundente ao mesmo tempo em que conta o trágico relato, tido por alguns como verdadeiro e por outros como ficcional, de Branca Dias, paraibana vítima da atuação da Inquisição no Brasil, extremamente violenta. 

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